domingo, 18 de maio de 2008

2 - “Time is money" ou "money is time?”

Por Gregório F. Baremblitt*.
Tradução: Dalva A. Lima.

Se for verdade, como dizem alguns historiadores, que a consigna que encabeça este artigo foi cunhada durante a passagem da hegemonia do capitalismo inglês para o norte-americano, vale a pena pensar a respeito.
Segundo parece, essa substituição, uma vitória, se deve à confluência de numerosos componentes, sendo que um deles se destaca. Trata-se da fundação das grandes empresas corporativas verticais, polifuncionais, integradas. As mesmas incluíam boa parte ou todos os equipamentos e recursos humanos necessários para cumprir quase todas as etapas de processamento de seu produto ou serviço: desde o desenho até à venda para o consumo de massas. Essa onivalência, para dizê-lo abreviadamente, facilitava o planejamento e os controles, diminuía os custos, aumentava desde a produtividade até à comercialização. Mas esses lucros se geravam em virtude de um fator que modulava tudo: a velocidade. É supérfluo recordar que, nesse caso, velocidade se define como o tempo consumido na realização de todas as operações em jogo.
Um aspecto essencial dessa velocidade era o investimento em tecnologia, que produzia sistemas maquinários para cada operação, cada vez mais rápidos. Essa arquitetura empresarial, se por um lado gerava poupança, por outro, era deliberadamente cara. Planejada em função de um desenvolvimento em longo prazo, prevenia, entre outros perigos, contra as crises de acumulação, concentração e também, devido ao rigoroso e incessante feed back da informação sobre o consumo, as crises de hiperprodução.
Em princípios do século XX, essas grandes corporações eram exclusivamente norte-americanas, porém, muito rapidamente, se foram instalando em outros países, replicando o modelo original ou alguma das etapas de seu processamento, sem deixar de ser americanas. 
É claro que esse modelo coexistia, tanto no país de origem, como no mundo inteiro, com a pervivência de muitos outros, mas com grande aceleração os ia superando na conquista dos mercados locais e externos.
Deixemos aqui de lado a complexa multidão de fenômenos sociais, políticos, econômicos e culturais que se foram gerando durante o transcurso do século para chegar, nas últimas duas décadas, á globalização, segundo o projeto neoliberal. Desde logo, os paradigmas empresariais variaram extraordinariamente. Mantenhamo-nos, todavia, nesse modelo empresarial vertical polivalente integrado, apenas para ilustrar um vetor, talvez não tanto relevante, como ilustrativo. Durante e New Deal, essas empresas foram intimadas por Roosevelt a alterar seus planos estratégicos, cuidadosamente escolhidos, para dirigi-los para a construção de infra-estrutura e criação de postos de trabalho. Na segunda guerra mundial, novamente, as corporações foram parcialmente obrigadas a redirecionar-se para o suporte logístico e a indústria bélica e, até certo ponto, o mesmo ocorreu durante a guerra fria e a série de onerosas "barras pesadas" da Coréia, Vietnã, Irã, Panamá, Granada etc., e, logo a guerra do Golfo.
Não pretendemos sustentar que nesses empreendimentos, por diversas razões, forçados, as corporações não haviam tido benefícios astronômicos; tampouco ignoraremos o peso competitivo da formação da Comunidade Européia e do bloco nipônico e oriental. Aqui só queremos destacar duas conseqüências dessas vicissitudes:
O processo de reinversão da ganância deixou de ser investido estritamente de acordo com o feed back do consumo para dedicar-se a uma expansão competitiva, excedendo os parâmetros clássicos que regiam essas organizações. 
Parte da ganância foi desviada para a especulação financeira dos relativamente novos produtos bolsistas. Estas duas variações de rumo deram início, (ao nível restrito que estamos analisando), à introdução de uma tessitura aleatória na rotina veloz, mas regulada, das corporações. Esse foi um dos primeiros movimentos que iriam gerar o endividamento impagável, a hipoteca do futuro, a subordinação das corporações ao capital financeiro e a multiplicação das fraudes, quebras, incorporações minoritárias etc. O perigo principal já nem sequer é dos cartéis e monopólios que Friedman se empenhava em ridicularizar.
Esse processo está, na atualidade, sucedendo-se com uma celeridade geométrica, e é uma das causas importantes da metamorfose do “time is money” em “money is time”.
Mutatis mutandis, o mesmo ocorre com os Estados Nacionais e até com a manutenção das entidades multinacionais como a ONU, a UNESCO, etc. O capital financeiro tende cada vez mais a estar sediado, não em corporações, nem Estados, nem com proprietários localizáveis. É um monopólio anônimo e ubíquo. Nem os liberais, nem os neoliberais, nem o neonacionalismo protecionista, nem o livre empreendimento, nem as corporações, multicorporações nem transcorporações podem com ele.
Isso que descrevemos é apenas uma abordagem (desde o prisma empresarial capitalista) do processo segundo o qual o dinheiro (como equivalente geral) se está metamorfoseando de mercadoria-insumo do processo de produção capitalista, em dono do tempo e da vida. 
Se “outro mundo é possível”, não o será sem incluir a abolição desse império.



*Gregorio F. Baremblitt é Livre Docente Autorizado de Psiquiatria pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nacional de Buenos Aires. Analista Institucional e Coordenador Geral do Instituto Felix Guattari de Belo Horizonte. Minas Gerais. Brasil.

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